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Carta do K5 para Natércia
Perguntas de criança:
Como os bebês entram na barriga da mamãe?
Como eles respiram dentro da barriga?
Como saem da barriga?

Essa semana me foi dada uma interessante missão. Na escola dos meus filhos, um dos projetos da turma de 5 anos era CORPO HUMANO. Por ser psicóloga e trabalhar com gestantes, fui convidada pra conversar com as crianças.

O bilhete que recebi já dizia muito sobre como seria a conversa. A professora sabiamente escreveu as dúvidas das crianças da forma como elas disseram, o que facilitou muito o meu approach.

Fui recebida por cerca de 45 crianças de 5 anos e algumas professoras. Para respeitá-los na capacidade de compreensão que tem e ao mesmo tempo dar conta de todas as curiosidades, fui dando espaço para que falassem o que sabiam do assunto e o que mais gostariam se saber.

As crianças são muito sábias e antenadas e dificilmente acharemos um assunto o qual não tenham algumas hipóteses formuladas. Quando converso com elas em situações como essa, no consultório ou com os meus filhos, fico atenta para que eu possa responder as dúvidas e angústias deles dentro do universo que é compreensível para a fase de desenvolvimento que se encontram.

Não me esqueço de um e-mail que recebi tempos atrás que uma filha de uns 7 anos pergunta, enquanto a mãe prepara o almoço, o que é “virgem”. A mãe fica sem jeito, com ar de “socorro, como falo sobre isso agora?!” e então pega alguns legumes, para ter mais elementos para falar sobre a virgindade. Depois de um longo e penoso (para a mãe) discurso, ela resolve perguntar onde a filha havia ouvido aquele termo e a filha pega então a garrafa de azeite à sua frente onde está escrito “azeite extra virgem”.

Esse e-mail é sensacional para mostrar como ouvimos as perguntas infantis com ouvidos adultos, o que torna as coisas muito mais complicadas. O mundo infantil é simples, nós adultos é que o complicamos.

Este assunto já vinha sendo falado em sala de aula esse semestre e as crianças sabiam coisas importantes.

Perguntei a eles se sabiam como o bebê entra na barriga da mamãe e rapidamente alguns disseram que tem um “ovo da mamãe”  que encontra uma “minhoquinha do papai”  e forma o bebê.

Genial! Já tínhamos uma bela resposta e que havia vindo das próprias crianças. Apenas os ajudei a nomear: “ovo da mamãe” = óvulo / “minhoquinha do papai” = espermatozóide.

“Como o espermatozóide chega ao óvulo?” perguntou uma menina.  Respondi simplesmente: “Nadando. Vão todos nadando e aquele que chegar mais rápido, que vencer a corrida, se juntará ao óvulo pra formar o bebê.”

Todos pareceram satisfeitos com a resposta. Era um grupo bem solto e falante e as crinaças não hesitavam em perguntar. Tenho certeza que, caso algo estivesse ainda no ar, teriam perguntado. Mas a resposta foi simples e prática. Dificilmente crianças dessa idade questionariam outros detalhes. Caso o fizessem haveriam ainda 2 possibilidades:

  1. ‘Explicar que quando o homem e a mulher se amam, gostam de namorar bem juntinhos, com os corpos coladinhos e desse namoro pode vir a gravidez.’ É incompleto? Sim, mas é o que basta, de modo geral, para uma criança de 5 anos. Conforme for crescendo, serão dadas mais informações. Poderia acontecer de uma criança não se sentir satisfeita com a resposta? Sim. Recorreria então à possibilidade 2.
  2. Entendo que ainda queira saber mais, mas estamos num grupo, então devemos continuar a atividade e no final, podemos conversar em particular. Não seria correto, devido ao questionamento de uma criança, expôr os demais à informações ainda muito complexas.

Não adianta os pais se iludirem, mais cedo ou mais tarde as crianças farão sim esse questionamento mais detalhado, mas o farão no momento em que já serão capazes de digerir, de compreender a resposta. Devemos lembrar sempre que, quando explicamos às crianças o que é uma “relação sexual”  estamos falando sobre um ato físico de reprodução e também emocional, pois intimidade nasce do envolvimento, pelo menos é isso que esperamos para nossos filhos certo?!

O caráter erótico da “relação sexual”  é uma construção adulta. O olhar ingênuo da criança permite que a relação sexual seja vista como um ato de amor e para reprodução. O despertar da sensualidade, do prazer e erotização começarão a surgir na adolescência e essa já é outra conversa.

Novas questões foram surgindo. Por que o bebê se desenvolve no corpo da mamãe e não no corpo do papai?

Porque a mamãe tem o corpo preparado para isso, tem um órgão chamado “útero”, que é um lugar certinho para o bebê crescer e se desenvolver. No começo o bebê é bem pequenininho e ao longo dos 9 meses vai crescendo e junto com ele, vai crescendo a barriga da mamãe, que vai ficando “barriguda”  (e não gorda como colocam alguns livros! As gestantes agradecem o cuidado e a delicadeza!).

Eles ficam fascinados com o fato de um “feijãozinho” (embrião) se transformar num bebê e neste momento, surgiu a possibilidade de conversar sobre a complexidade desse desenvolvimento e como podem então acontecer “erros”  no meio do caminho. Alguns “erros” não são tão graves e a criança nasce, fica bem e consegue viver com ele. Havia ocorrido recentemente um fato marcante em uma das classes, uma  criança havia perdido um irmão com 5 meses de idade gestacional. Tanto a criança, quanto os amiguinhos, que souberam do ocorrido, estavam ainda elaborando esse fato, portanto tornou-se fundamental abordar essa questão da forma mais sensível e delicada possível. Naquele caso, várias crianças já sabia que nem sempre as gestações chegam ao fim.

Nesse momento surge uma colocação incrível de uma criança: “Eu conheço uma pessoa que não tem uma orelha, tem a boca tortinha e uma das mãos dele não funciona bem, mas ele vive muito bem assim.” Esse foi o gancho para que falássemos sobre a complexidade do desenvolvimento do bebê dentro da barriga.

Perguntei: “O que uma pessoa precisa pra poder viver?” e eles logo trouxeram sábias respostas: “não dá pra viver sem coração”, “não dá pra viver sem cérebro”, “não dá pra viver sem pulmão se não a gente não respira”… Foi ficando claro pra elas que, se o bebê na barriga não estiver em condições de viver ao nascer, ele pode acabar morrendo antes, ainda na barriga da mamãe.

Surge então mais um lindo comentário: “Isso acontece mesmo, minha mãe já perdeu um bebê na barriga!”. Lindo! Maravilhoso poder falar sobre isso com naturalidade. Imagino o quanto isso fez bem à criança cuja mãe recentemente perdeu o bebê e para os amiguinhos.

Dizem que as crianças são cruéis. Não concordo com isso. As crianças são autênticas e generosas em seus comentários e muitas vezes não sabem ainda adequar seus comentários ou quando não fazê-los. Esse “filtro” ou “superego” (como dizia Freud), é desenvolvido aos poucos com ajuda dos adultos que mais convivem com a criança.

Cruéis são os adultos que acham que a criança deve ter esse critério desde pequena e não ensinam aos filhos a ver o outro e pensar no que poderia ou não ferir ao ser dito ou comentado. A criança é egocêntrica por natureza e somos nós pais que despertamos nela o olhar e o cuidado com o outro.

Quando uma criança um pouco maior faz comentários “cruéis”, ou não tem sido ensinado a ela a adequar-se ou, excepcioonalmente, é uma criança que tem certo prazer nessa “maldade” ou repete uma dinâmica vivida em outro lugar. Essas, são fortes candidatas a se tornarem causadoras de bullying (caso os adultos ao redor não estejam atentos).

As crianças ficaram fascinadas ao saber o que os bebês são capazes de fazer dentro da barriga, como chupar o dedo e ouvir barulhos e vozes de fora. Para que entendessem melhor, pedi aquele monte de pequenos curiosos que tampassem os ouvidos com as mãos e então falassem um pouco. “Notaram como o som fica abafadinho?”, e eles em coro: “Siiiiiiim!”, “Então, é assim que vocês ouviam dentro da barriga da mamãe!”

“Por onde o bebê respira e come?” A maioria já conhecia o famoso cordão umbilical e ao falar nele, orgulhosamente mostravam seus umbigos. Mas só aos poucos foram compreendendo as implicações desse cordão. É devido a ele que os bebês podem ficar na “aguinha” (líquido amniótico) dentro daquela “bexiga” (saco gestacional) dentro do útero. Uma grande novidade foi saber que, mesmo quando ele sai da barriga, enquanto o cordao não for cortado, ele não usa o nariz para respirar, mas ao cortar o cordão… buaaaaá! O bebê chora para dar a primeira respirada e abrir o pulmão.

“O choro do bebê significa que ele está sofrendo?” e eles rapidamente: “Não”, e então eles entendem que essa é a única forma que o bebê tem de se comunicar enquanto não sabe falar.

Um menina, sempre atenta, sentada longe de mim diz: “A mamãe tem que se alimentar bem pro nenê crescer né?!” Sabem tudo esses pequenos encantadores!

Chega a hora de falar sobre o nascimento. Um dos meus momentos preferidos. A maioria já vai falando que nasceu da barriga da mamãe, que “o médico cortou e tirou”…

Levei um material educativo que permitia mostrar o nascimento por parto normal, a cesárea, o corte do cordão umbilical… A cesárea já era familiar a maioria, mas o parto normal… Uma menina falou bem baixinho ao meu lado: “Pode nascer por aqui”, se referindo ao parto normal. Questionei o grupo como chamavam aquele lugar ali. Silêncio. Comentei: “Em casa falamos que o menino tem pipi e a menina tem ‘pipia’ e como é na casa de vocês?” Foram surgindo vários nomes: ‘periquita’, ‘pequerita’, ‘frentinha’… Me lembro em 2007, quando fui conversar com a turma do meu filho mais velho sobre o mesmo assunto, surgiu um nome que adorei: ‘pepéca’. Sensacional!

A partir da nomeação dada por eles, acrescentei: “o bebê pode nascer pela barriga, quando o médico corta, mas pode nascer também pela ‘periquita’.” Esclarecemos que quando o médico corta a barriga, a mamãe não sente porque é dado um remédio chamado “anestesia”  que deixa o corpo dela dormindo da cintura para baixo. Esse ponto é importante porque o pensamento concreto da criança pode levá-la a imaginar o “médico cortando a barriga da mamãe” como algo terrível, agressivo e sangrento.

Explico então que a mulher tem três furinhos, o ânus, por onde faz cocô – nessa hora meu filho me cutuca falando baixinho “mãe, não fala essa palavra que é palavrão!” – o buraquinho por onde faz xixi e um buraquinho a mais que dá num lugar chamado “canal vaginal” por onde pode sair o bebê. Interessante pra eles que “o homem tem só 2 furinhos e a mulher tem 3!”.

Simulamos rapidamente um nascimento por parto normal e um por cesárea. Todos atentos e participativos. Comentários como “o nenê sai todo sujo de sangue”, “quando o nenê vai nascer, sai um monte de água da barriga”, “da barriga da minha tia saíram 2 bebês de uma vez”, “eu vi minha prima nascendo” vão mostrando como eles já têm um certo conhecimento sobre o assunto, seja por conversas, seja vivencial.

O mais lindo é vê-los se apropriando de tudo isso e transformando num conhecimento que lhes permite entender melhor a si mesmo e o mundo.

Surge então um comentário curioso de um menino: “a barriga cresce e o peito da mamãe também fica bem grande”. Foi a porta de entrada para falarmos sobre amamentação. Levei uma mama de tecido, através da qual pude mostar como o bebê suga a aréola, onde o leite fica armazenado, porque o peito da mamãe fica “grandão”.  Uma menina ficou surpresa ao saber que um bebê pode viver só com leite manterno por 6 meses, sem precisar nem mesmo de água.

Finalizando a conversa, as crianças puderam tocar, mexer, olhar o material todo e foi interessante o quanto olhavam tudo, todos os detalhes, do bebê à mama de tecido.

Foi um momento muito especial e gratificante. Junto com as crianças,  com suas deliciosas e interessantes contribuições,  pudemos explorar esse universo fascinante da concepção, gestação, nascimento e amamentação dentro da curiosidade, possibilidade de conhecimento e compreensão de crianças de 5 anos. E mais uma vez, pude aprender muito e me emocionar com os olhares atentos, mãozinhas levantadas por boquinhas loucas pra falar e abraços gostosos ao final do bate-papo.

Sou muito grata por ter tido mais essa rica oportunidade de acompanhar as crianças nessas preciosas descobertas e ao mesmo tempo aprender tanto com o interesse, sede de conhecimento e curiosidade deles.

Natércia Tiba

Novembro/2010

Observação: Indico video no YouTube: “Mãe, o que significa virgem?”

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Comentários em: "BATE-PAPO DE CRIANÇA" (23)

  1. Catarina disse:

    Estou impressionada com a qualidade da conversa e o encaminhamento realizado por vc! Muitas crianças de 5 anos conseguiram ter uma longa conversa com alguém que estava interessado em tirar suas dúvidas com respeito e sinceridade (sempre utilizando a linguagem que crianças possam entender).

    Adorei o episódio do azeite extra virgem! Na nossa ansiedade de adultos acabamos superestimando as perguntas das crianças.

    Gostaria de deixar uma dica de livro que crianças pequenas adoram ler e é sobre esse assunto. “Mamãe botou um ovo” de Babette Cole. Lembro que vi crianças de 2 ano ainda mto interessadas neste livro na sala de aula. Ele é esclarecedor e divertido ao mesmo tempo.

    Adorei a leitura, flui e estou esperando outro post.

    • Obrigada Cata! Gosto mto desse livro tb, assim como outros da Babette Cole. Ela é polêmica mas bem interessante. Vou colocar aqui algumas dicas de livros sobre esse assunto. Bjos e obrigada pelo carinho!

  2. Fiquei me imaginando no lugar dessas crianças. Que privilégio ter nossas perguntas respondidas e de uma forma que nos satisfaça! Me chamou a atenção como o papo foi informativo e conseguiu ir muito além das “simples” perguntas iniciais. Aguardo mais!!!

  3. Liiiiiiiiinnnnndddddoooooo!!Me emocionei!!!estou chorando ate agora!! O Hideki amou sua aula e agora vive me perguntando qdo.vai nascer a sayuri! A aula dA Tica foi realmente especial o Hideki fala ate hj!!! Bjos
    Denise Sato

  4. Que delícia de texto, Tiça! Tenho certeza que sua aula será lembrada não só pelo conhecimento que gerou, mas pela afetivadade que vc transmite. Parabéns! =)
    Ana Elisa Medeiros

  5. Muito, muito, muito lindo! Uma experiência e tanto! Parabéns Tiça e obrigada por compartilhar conosco. Beijos enorme…. Cynthia Zaclis Rabinovitz

  6. Renata de Mello Arantes disse:

    Tiça querida, PARABÉNS! Realmente o seu blog foi feito com muito carinho! Com certeza vamos rir muito das pérolas da sua duplinha e aprender muito com todas as dicas e informações! Obrigada por sua dedicação! Beijocas! Rê

  7. Um Show!
    daqueles que qdo. vc menos espera já acabou, muito bom messsmmmoooo!
    Curti o bata papo com as crianças em relação ao nascimento ….
    Qtos. pais não sabem como lidar com este assunto e pensando bem deve ser ai que começam os problemas de relação pai e filho, não é mesmo?
    Parabêns!

  8. Sandy disse:

    AMIGA!! Que orgulho! Adorei o Blog, adorei o texto e fico imaginando que máximo deve ter sido essa aula que já tinha curtido muito com as fotos! Você é realmente especial! Que delicia ser sua amiga e fazer parte da sua familia por tanto tempo!! Beijo enorme

  9. Paula Doherty disse:

    Tiça,
    adorei!! Parabéns pela iniciativa!!
    Nem precisa dizer que amamos vc de paixão!!
    Beijo,
    Paula ( e Linoca )

    • Paula e Lina, que delícia saber que vcs passaram por aqui. Vcs moram no meu coração. Delícia demais ter conhecido pessoas lindas e especiais como vcs! Mto obrigada! Bjos e saudades!

  10. Tiça;

    Muito bacana seu blog!
    Como tudo que vc faz, cuidadoso, harmonioso e muito útil, trazendo informações preciosas de um jeito gostoso!

  11. alice do valle disse:

    Tiça, que texto lindo!
    Pude imaginar a cena e me transportar para aquele momento!
    Parabéns!

  12. adore sua inciativa…
    minha familia toda adora vc nem presiza dizer nos te adoramos xau (danielle e familia)

  13. oi eu sou a dani eu so queria te dizer que minha familia te adora muito ta bjs

  14. kamylla disse:

    gosteii!! :) + cmo vc faz um site? alguem sabe? ñ é q sou burra ñ pq eu sei mexer em mta coisa + como q se faz um site tão legal igual a esse?

  15. viviane disse:

    deve ser mt bom so criança

  16. vitoria disse:

    so pra sabe me adicionem no msn e vivifunk12@hotmail.com

  17. vitoria disse:

    :p

  18. pq os bebes são tão fofos? e toda vez que eles vão passear sempre falam que bebe é fofinho?

  19. e pq eles quando são recem-nascido eles sentem muito frio num calorzão?

  20. oi meu nome é marilene e quem queser mufacebook e meu msn é marilenegata2013@hotmail.com e quem quiser me sigir no twitter é o mesmo e-mail beijos

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